Vencer a Discussão Não Basta
O Górgias, de Platão, é um diálogo sobre retórica, poder e justiça. Para quem nunca leu Platão, vale uma explicação simples: seus livros costumam apresentar o filósofo Sócrates conversando com outras pessoas, fazendo perguntas e desmontando, pouco a pouco, aquilo que parecia óbvio no início.
Nesse diálogo específico, Sócrates conversa com Górgias, um famoso professor de retórica, e depois com Polo e Cálicles. A questão central é do diálogo é a seguinte: afinal, o que a retórica realmente faz?
Górgias afirma que ela dá ao homem o poder de persuasão. Quem domina a palavra consegue convencer os tribunais, as assembleias e as multidões. Em outras palavras, consegue influenciar decisões, conquistar prestígio e se impor sem precisar conhecer profundamente todos os assuntos sobre os quais fala.
Diante dessa explicação, Sócrates percebe o perigo imediatamente.
Uma pessoa pode convencer muito bem sem saber absolutamente nada sobre o que está falando. Pode parecer justa sem nunca ter praticado um único ato de justiça. Pode defender uma ideia falsa com mais habilidade do que alguém defende a verdade. A retórica, quando separada do compromisso com o bem, vira apenas uma técnica para produzir impressões.
É difícil imaginar um tema mais atual.
Vivemos cercados por gente treinada para parecer extremamente segura. Políticos, influenciadores, empresários, jornalistas, especialistas de ocasião e pessoas comuns nas redes sociais aprenderam a falar com firmeza, organizar frases de efeito e tratar qualquer hesitação da parte oposta como fraqueza. Muitas vezes, quem fala melhor vence, mesmo quando é absolutamente ignorante.
Todos nós, uma hora ou outra, sentimos a tentação de usar as conversas e discussões para protegermos nossa imagem e defendermos nossa posição. Deixamos de escutar para aprender e começamos a escutar só para encontrarmos a falha que nos permitirá responder.
A discussão deixa de ser uma busca pela verdade e vira uma luta de sobrevivência do mais forte.
Tremendas Trivialidades
Edição #185#
No Górgias, Sócrates insiste em algo desconfortável: sofrer uma injustiça é ruim, mas praticá-la é ainda pior, porque o dano maior não está na reputação ou no corpo, mas no caráter. Para ele, não basta escapar das consequências ou parecer correto diante dos outros. É preciso ser justo de fato.
Essa ideia contraria boa parte da lógica atual. Hoje, muitas vezes, basta que ninguém descubra. Basta controlar a narrativa, explicar bem, encontrar um culpado que não seja você e sair com a imagem preservada. O caráter pode estar em ruínas, desde que a narrativa esteja funcionando.
Mas uma boa defesa não transforma um erro em acerto.
Esta é a utilidade mais palpável do diálogo de Platão: lembrar que falar bem é uma ferramenta, não uma virtude. A eloquência pode servir à verdade ou escondê-la. Essa é uma premissa que devemos manter continuamente em nossas cabeças.
Não devemos nos perguntar: “Consigo convencer?”. Mas sim: “Estou sendo verdadeiro?”. Não nos preocupemos somente em ganhar a discussão, mas em não sairmos dela pires do que entramos. E, quando percebermos que estamos errados, que não usemos a inteligência para construirmos uma saída elegante, mas para corrigirmos o rumo.
Talvez por isso Sócrates fosse tão incômodo e extremamente chato na visão de muitos de seus opositores. Ele não oferecia às pessoas uma maneira melhor de vencer. Obrigava-as a perguntar se a vitória valia alguma coisa.
Há verdades que só encontramos quando aceitamos perder.
Na última discussão de alto nível que você teve no trabalho ou no casamento, o seu esforço foi direcionado para compreender o argumento do outro e corrigir o seu posicionamento ou para encontrar uma brecha na fala dele e salvar a sua dignidade a qualquer custo? Você prefere estar genuinamente errado ou falsamente certo?