Somos todos meio idiotas

Recentemente, hesitei para não fazer um comentário em uma reunião do trabalho. Eu sabia o que queria dizer, mas travei. Não por falta de capacidade ou informação. Travei porque, por alguns segundos, achei que poderia parecer idiota. E ali ficou claro o quanto esse medo discreto governa mais decisões do que gostamos de admitir.

Existe um tipo de insegurança que não nasce da nossa incapacidade (que pode ser real), mas do apego exagerado à própria imagem. Não é falta de confiança; é excesso de zelo com a própria dignidade.

Deixamos de nos mover porque não queremos errar, não queremos nos expor, não queremos correr o risco de parecermos deslocados. O medo não é falhar. É passar vergonha.

A partir disso, muita coisa deixa de acontecer. Você não pergunta. Não tenta. Não se oferece. Não se candidata. Não se aproxima. Vai escolhendo sempre o caminho mais seguro, mais discreto, mais defensivo. E, sem perceber, a vida vai ficando menor. Mais organizada, talvez. Mas menor.

O que sustenta esse comportamento é uma fantasia: a de que existe uma forma madura de viver em que finalmente deixamos de parecer meio perdidos. Como se, depois de certa idade, fosse possível atravessar a vida sem “pagar mico”, sem falas infelizes, sem momentos constrangedores. Não é. Nunca foi. Apenas aprendemos a esconder melhor.

O problema é que só vemos as versões editadas dos outros. Isso cria a ilusão de que todo mundo sabe exatamente o que está fazendo, menos nós.

A verdade é simples e meio feiosa: parecer idiota faz parte do pacote humano. Não é uma exceção. Quem tenta escapar disso não se torna mais digno; apenas mais contido, mais travado, mais ausente da própria vida.

A verdade é simples e meio feiosa: parecer idiota faz parte do pacote humano. Não é uma exceção.

Tremendas Trivialidades

Edição #162#

C.S. Lewis resumiu isso com precisão: “Humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo”. O medo constante de parecer idiota nasce justamente do oposto, de pensar demais em si, na própria imagem, na própria exposição.

Quando você parte do princípio de que vai errar, que vai falar besteira às vezes, que nem toda tentativa vai funcionar, o medo se enfraquece. O constrangimento deixa de ser uma ameaça invisível e vira apenas um custo ocasional.

Algumas coisas vão dar errado. Algumas pessoas vão rir. Algumas portas vão se fechar. Isso não é fracasso. É você se movendo. E, de vez em quando, no meio das tentativas que não funcionam, algo funciona. Mas isso só acontece com quem aceita o risco.

Confiança não nasce de se achar especial. Nasce de parar de achar que você é uma exceção. Você é humano. Vai tropeçar. Vai ser mal interpretado. Vai sobreviver a tudo isso.

O medo de parecer idiota rouba mais vida do que o erro em si. Porque o erro passa. A vida que você não viveu, não.

Talvez o caminho não seja tentar parecer mais inteligente ou mais seguro, mas aceitar que um pouco de ridículo é um preço justo para uma vida bem vivida.

💭 EXAMINE A SI MESMO

Se você tivesse a garantia absoluta de que ninguém se lembraria do seu "erro" ou da sua "pergunta boba" daqui a 24 horas, o que você teria feito de diferente hoje? E o que te faz pensar que a memória dos outros é tão dedicada a você assim?
Na edição de hoje

Curadoria Parabellum

  • I. Educação dos Sentidos: Uma música de 1845 que retrata a guerra civil entre o prazer e o dever que ocorre na sua mente.
  • II. Construção de Repertório: Um conto russo que funciona como um espelho para quem vive correndo atrás de só mais um pouco.
  • III. Ombros de Gigantes: A dificuldade não está no tamanho do obstáculo, mas no tempo que perdemos hesitando.
  • IV. Faça Alguma Coisa: Pequenos atos de exposição calculada para ensinar ao seu ego que o constrangimento não é perigo real.
  • V. Trilha Sonora: Um rock clássico sobre a ansiedade masculina e o risco de ser atropelado pela própria mente.
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