O Trabalho Não Deveria Ser Um Pedido de Socorro
Há uma forma de adoecer pelo trabalho que quase nunca parece doença. Vista de fora, ela pode parecer ambição, disciplina ou o mais ajustado senso de responsabilidade. Você acorda cedo, entrega resultado, assume compromissos, cumpre suas obrigações, busca crescer e recebe elogios. Mas, por dentro, talvez esteja apenas tentando provar, todos os dias, que merece existir.
Nem todo esforço nasce de maturidade. Às vezes, o sujeito trabalha muito porque é responsável, tem família e sabe que a vida custa caro e que ninguém virá salvá-lo no fim do mês. Isso é bom, honesto e necessário. O problema é que tem gente que faz com que o trabalho deixe de ser serviço, sustento e vocação concreta, para ser um tribunal permanente onde ele tenta arrancar do mundo uma sentença favorável sobre si mesmo.
É a pessoa que não consegue descansar sem culpa, que transforma cada crítica em ameaça pessoal, que mede o próprio valor pelo cargo, pelo salário, pela admiração dos outros ou pela sensação de estar sempre avançando. Ela não quer apenas trabalhar bem; ele precisa que o trabalho lhe diga que ele é alguém. E, quando isso acontece, a carreira deixa de ser parte da vida e começa a ocupar o lugar da própria identidade.
Há também aquele que usa o trabalho para ser visto. Talvez tenha passado a vida com a sensação de que só seria amado se fosse útil, produtivo, brilhante ou indispensável. Então ele corre, assume mais do que deveria, compete mais do que precisa e entra em disputas que não fazem sentido. Chama isso de ambição, mas muitas vezes é só desejo de aprovação.
Uma pessoa mais madura não olhe para a carreira com desprezo, mas também não espere dela aquilo que ela não pode entregar.
Tremendas Trivialidades
Edição #180#
O trabalho é importante, forma nosso caráter, sustenta a casa, nos aproxima de Deus, coloca o homem em contato com o mundo real e dá a ele um campo concreto para servir. Mas o trabalho não é pai, não é confessor, não é terapeuta e não deveria ser o lugar onde alguém mendiga dignidade.
Quando o homem sabe minimamente quem é, ele consegue trabalhar melhor justamente porque não precisa ser salvo pelo trabalho. Pode buscar excelência sem entrar em pânico, consegue aceitar autoridade e críticas sem se sentir diminuído, liderar sem idolatrar o poder, obedecer sem se sentir humilhado e ganhar dinheiro sem transformar dinheiro em prova de valor.
A inveja profissional revela muito disso. Quando o sucesso de um colega incomoda demais, talvez o problema não esteja no colega. Talvez esteja no fato de que ainda medimos nossa vida como se houvesse pouco espaço no mundo e pouca possibilidade de alguém ser reconhecido sem que isso diminua nosso valor.
No fim das contas, o trabalho revela mais do que produz. Revela inseguranças, vaidades, medos, carências e também virtudes. Revela se você serve ou apenas performa. Revela se quer construir algo bom ou apenas ser visto como alguém importante.
Existe uma diferença enorme entre trabalhar para sustentar uma casa, honrar talentos e servir aos outros, e trabalhar como quem tenta preencher um buraco que nenhuma promoção será capaz de fechar.
Trabalhe bem. Trabalhe sério. Trabalhe com ambição limpa. Mas não peça ao trabalho que ele diga quem você é.
Monitore sua reação na próxima vez que receber um feedback negativo ou uma correção direta no seu ambiente de trabalho. O seu incômodo será técnico, voltado a corrigir o processo, ou você sentirá que a sua dignidade como homem foi rebaixada pelo erro? Se o seu cargo sumisse amanhã, o que restaria da sua resposta para a pergunta "quem é você"?