O Reclamão

Todo mundo conhece alguém assim. Às vezes, com algum desconforto, a gente percebe que também pode ser esse sujeito em certos dias.

É o homem que chega e já começa pelo problema. O trânsito estava uma desgraça, o trabalho está insuportável, o chefe é incompetente, o país acabou, a comida demorou, o preço subiu, o filho faz barulho, a esposa não entende, o mundo está perdido. Talvez quase tudo tenha algum fundo de verdade, mas, depois de um tempo, já não importa tanto se ele tem razão. O que interessa é que a presença dele sempre vem acompanhada de uma nuvem negra.

Marco Aurélio já percebia o problema do reclamão ao dizer: “Não seja ouvido reclamando… nem mesmo por si próprio.”

Reclamar, em alguma medida, é humano. Há dias ruins, injustiças reais e cansaços que precisam ser ditos antes que virem coisa pior. O problema é quando a reclamação deixa de ser um desabafo ocasional e vira o idioma principal de uma pessoa.

Você já influencia pessoas todos os dias, queira ou não. Não é uma escolha, é uma consequência de estar vivo e presente.

Tremendas Trivialidades

Edição #173#

Quem só reclama vai treinando o olhar para encontrar defeito antes de encontrar sentido. Entra em casa e vê primeiro o que está fora do lugar. Vai a um almoço e percebe antes o serviço ruim do que a companhia boa. Recebe uma notícia positiva e já procura o risco ou a pegadinha escondida. Está diante de um dia comum, talvez até decente e feliz, mas precisa achar um problema para justificar o mau humor que já trouxe consigo.

E isso cansa quem está por perto. Não de uma vez, mas pelo acúmulo. Pela sensação de que toda conversa precisará atravessar o mesmo corredor estreito de queixas, ironias e previsões ruins. Com o tempo, as pessoas evitam certos assuntos, depois evitam conversas mais longas e, quando percebem, evitam a própria presença.

É duro admitir, mas há gente que se torna pesada não por causa dos problemas que enfrenta, mas pela forma como decidiu contar a própria vida.

Reclamar também dá uma falsa sensação de lucidez. O sujeito crítico parece mais esperto, mais atento, menos iludido. Ele olha para quem ainda se alegra com alguma coisa e pensa que aquilo é ingenuidade. Como se maturidade fosse enxergar somente o que está ruim. Mas qualquer um consegue apontar defeitos. Difícil mesmo é reconhecer o mal sem deixar que ele tome posse do olhar inteiro.

Em casa, isso fica ainda mais sério. Um pai que só reclama ensina os filhos a tratarem a vida como um fardo. Um marido ou esposa que só reclama transforma a convivência em lugar de defesa. Um amigo que só reclama deixa de ser companhia e vira obrigação. Aos poucos, a reclamação rouba algo pequeno apenas na aparência: a leveza possível dentro de uma vida difícil.

Não precisamos virar otimistas profissionais, desses que sorriem como se tivessem desligado metade do cérebro. Há muita coisa errada mesmo, e fingir que não há seria apenas outra mentira. A questão é outra: é possível olhar para o que está errado sem se tornar propriedade disso. É possível falar dos problemas sem reduzir toda conversa a eles. É possível ser realista sem ser azedo.

Talvez o primeiro passo seja prestar atenção ao que sai da boca nos primeiros minutos de uma conversa. Não para virar uma pessoa artificial, mas para perceber se a sua presença tem sido sempre marcada pelo peso. Antes de reclamar do atraso, dá para cumprimentar melhor. Antes de comentar o defeito, dá para notar o esforço. Antes de despejar o cansaço, dá para lembrar que o outro também carrega o dele.

Uma coisa é ter dias difíceis. Outra é se tornar difícil de ter por perto.

💭 EXAMINE A SI MESMO

Faça um inventário das suas últimas cinco conversas. Quantas delas começaram ou terminaram com uma queixa sobre algo que você não pode mudar? Você tem procurado o melhor ou o pior da vida?
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