O Orgulho de Estar Certo

É fácil condenar o orgulho mais visível, aquele feio, vicioso, que aparece vestido de arrogância aberta. É o sujeito que se acha superior, que humilha os outros e faz questão de parecer acima de todos. Esse orgulho é feio, evidente e, por isso mesmo, mais simples de identificar.

O problema maior é outro: o orgulho que se disfarça de lucidez, de convicção e de bom senso. É aquele pequeno prazer de olhar para um grupo de pessoas e pensar: “como conseguem ser tão burros?”. Pode acontecer na política, na religião, no trabalho, na família ou na internet. O mecanismo é sempre parecido: enxergamos o erro alheio com uma nitidez impressionante e tratamos nossas próprias limitações como detalhes compreensíveis e justificáveis.

Esse orgulho é perigoso porque nos dá uma falsa sensação de grandeza. Ele permite que nos sintamos inteligentes sem precisar ser melhores, justos sem precisar amar, firmes sem precisar ser humildes. É muito fácil construir uma identidade inteira em cima daquilo que desprezamos, especialmente num mundo em que basta escolher um inimigo, repetir que ele é idiota, cercar-se de gente que concorda e chamar isso de coragem. Mas muitas vezes é apenas vaidade fantasiada de princípio.

A verdade é que todos nós gostamos de imaginar que nossas opiniões são fruto de busca honesta pela verdade, enquanto as opiniões dos outros são resultado de ignorância, má-fé ou manipulação. Quando discordamos, dizemos que estamos pensando; quando o outro discorda, dizemos que ele foi enganado. A generosidade que exigimos para nós raramente oferecemos com a mesma facilidade.

Aos poucos, deixamos de ver pessoas e passamos a ver categorias: o burro, o lunático, o jovem mimado, o velho ultrapassado, o chefe incompetente, o funcionário preguiçoso, o parente ignorante. A pessoa concreta desaparece, e no lugar dela fica apenas uma caricatura conveniente, simples o bastante para ser desprezada sem culpa.

Cristo nunca tratou as pessoas assim. Ele podia ser duro, especialmente com quem usava a verdade para se colocar acima dos outros, mas sua dureza nunca nasceu de desprezo. Ele se aproximava de gente quebrada, confusa, errada e moralmente desorganizada, sem fingir que o erro não existia ou deixar de condenar o pecado, mas também sem reduzir a pessoa ao erro que ela carregava.

Humildade não é fingir que todas as opiniões valem a mesma coisa, nem abandonar convicções. Humildade é lembrar que você também já acreditou em besteiras, já falou com segurança sobre o que não entendia, já julgou mal, já foi injusto e já precisou de paciência.

O homem humilde não deixa de ter firmeza, só abandona o prazer de se sentir superior.

Tremendas Trivialidades

Edição #182#

C.S. Lewis escreveu uma frase que deveria incomodar qualquer homem muito satisfeito com a própria lucidez:

“Um homem orgulhoso está sempre olhando de cima para as coisas e as pessoas; e, claro, quando você está olhando para baixo, não pode ver algo que está acima de você.”

O homem orgulhoso está sempre olhando para baixo. E quem vive olhando para baixo pode até encontrar muitos erros nos outros, mas perde a capacidade de ver algo maior do que si mesmo. Torna-se especialista em defeitos alheios e principiante na própria alma.

A humildade, por outro lado, abre espaço. Ela permite discordar sem desprezar e admitir, quando necessário, que talvez o outro tenha visto algo que nós não vimos. Isso exige mais coragem do que parece, porque há um pequeno sofrimento em abandonar a pose de quem está sempre certo, mas é um sofrimento saudável.

💭 EXAMINE A SI MESMO

Qual foi a última vez em que você participou de uma discussão, seja em casa, no trabalho ou na internet, e admitiu abertamente que seu argumento estava errado ou incompleto? O seu foco diário está em corrigir os seus próprios pontos cegos ou em catalogar a burrice e a incompetência das pessoas ao seu redor?
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