O Bê-á-bá dos Adultos
Se você tem filhos (ou convive com crianças) sabe o quão difícil é ensiná-los a falar, e já deve ter notado também que é ainda mais difícil fazê-los parar de falar depois que aprendem.
No começo, não têm filtro nenhum. Fazem perguntas inconvenientes, observações absurdas e confissões que deixam os adultos sem saber onde enfiar a cara. Aos poucos, porém, depois de bastante esforço, entendem as regras. Descobrem o que nem tudo deve ser dito, quais sentimentos causam desconforto e que certas verdades não precisam ser expostas.
Quando chegam à vida adulta, muitos já dominam perfeitamente essa arte. Sabem dizer “está tudo bem” quando não está, “não me importo” quando se importam bastante e “só estou cansado” quando, na verdade, estão com medo, com raiva ou profundamente frustrados.
Talvez amadurecer também seja aprender a falar de novo.
Tremendas Trivialidades
Edição #184#
Não como uma criança, despejando tudo sem medida, mas como um adulto capaz de unir verdade e responsabilidade.
Dizer: “Não estou bravo com você; estou preocupado e não sei falar disso direito.”
Ou: “Tenho agido de forma estranha porque estou com medo de ser rejeitado.”
Ou ainda: “Isso me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.”
Essas frases parecem simples, mas exigem bastante coragem de nós. É muito mais fácil fingir que a ansiedade é mau humor, que a insegurança é só indiferença ou que a tristeza é cansaço.
Grande parte do que dificulta nossas vidas e relações não é aquilo que sentimos, mas a maneira confusa como escondemos isso. No intuito de esconder a verdade, dizemos o que não gostaríamos de dizer, e colhemos os frutos disso. Sentimos medo e demonstramos frieza, ficamos magoados e disparamos ironia.
Falar com honestidade não significa transformar toda conversa numa confissão, nem obrigar os outros a suportar cada detalhe da nossa vida interior. Significa apenas parar de oferecer uma versão falsa de nós mesmos quando algo importante precisa, e convém, ser dito.
É isso que torna certas amizades e casamentos tão raros: alguém finalmente consegue dizer o que sente sem atacar, dramatizar ou fugir. E o outro, em vez de encontrar uma parede, encontra uma pessoa.
Aprender a falar foi uma das primeiras grandes conquistas da infância. Aprender a falar com verdade talvez seja uma das últimas da vida adulta.
Quantas vezes na última semana você usou o cansaço físico como um escudo para não ter que admitir um desconforto emocional, uma preocupação com o trabalho ou um medo real? Você tem oferecido às pessoas mais importantes da sua vida uma pessoa concreta ou apenas uma versão falsa e editada de si mesmo?