Você trabalha para ser alguém ou trabalha porque já é?
O trabalho ocupa uma das posições centrais em nossas vidas, e não poderia nem deveria ser diferente. Mas essa relevância natural, somada às características do mundo de hoje, muitas vezes nos fazem confundir posição central com protagonismo.
Essa confusão pode ser expressa na seguinte pergunta: você trabalha para se tornar alguém ou trabalha porque já é alguém? A diferença parece pequena, quase semântica, mas ela reorganiza completamente a forma como você entra no escritório, aceita uma promoção ou lida com uma crítica do chefe.
Muitas pessoas vivem como se o trabalho fosse um exame permanente, no qual cada meta batida representa uma validação pessoal e cada promoção funciona como um selo que confirma que, finalmente, estão à altura do que esperavam de si mesmas. Nesse modelo, o reconhecimento não é apenas uma recompensa, mas uma necessidade a ser atingida a qualquer custo. O problema é que essa lógica não tem ponto de chegada, porque sempre haverá alguém mais produtivo, mais eficiente ou mais admirado, e, quando o valor pessoal depende do desempenho, a sensação de insuficiência nunca desaparece.
Quando o trabalho passa a ser o instrumento para provar que você é alguém, ele deixa de ser serviço e se transforma em palco, e é aí que tudo começa a ficar confuso. Um projeto que fracassa deixa de ser apenas um erro técnico e se converte em ameaça à própria identidade; uma crítica, que deveria ser apenas um ajuste de rota ou uma pequena chateação, vira um ataque à dignidade. Trabalhar assim é viver constantemente avaliado, como se cada atividade estivesse decidindo o seu valor como pessoa.
Mas existe outra forma de encarar o trabalho, e ela começa por uma inversão simples, embora exigente: trabalhar não para conquistar seu valor, mas porque você já possui valor; não para fabricar sua identidade, mas para expressá-la; não para se justificar diante do mundo, mas para responder ao que você já é.
Talvez um dos equívocos mais silenciosos do nosso tempo seja ensinar homens a construir um currículo antes de construir caráter.
Tremendas Trivialidades
Edição #165#
Quando nossa identidade existe antes da “performance”, o trabalho muda de lugar. Ele continua sério, continua exigente e continua importante, mas deixa de ser protagonista. Você pode buscar excelência sem desespero, pode desejar crescer sem transformar ambição em idolatria e pode errar sem se afundar, porque o que está em jogo é o seu projeto, não a sua dignidade.
Talvez um dos equívocos mais silenciosos do nosso tempo seja ensinar homens a construir um currículo antes de construir caráter. A ordem, no entanto, deveria ser outra: primeiro você é, depois você faz. E é justamente essa ordem que sustenta um trabalho verdadeiramente livre.
O trabalho molda, disciplina e amadurece, mas ele não cria a sua dignidade; no máximo, revela o que sempre esteve ali. Se você precisa trabalhar para sentir que é alguém, viverá sempre com medo de não ser suficiente e nunca descansará de verdade. Contudo, se trabalha porque já é alguém, o esforço deixa de ser prova e se transforma em resposta, e isso muda completamente a maneira como você acorda às segundas-feiras.
Observe a sua reação diante de um erro cometido no trabalho ou de um feedback negativo. O que dói mais: a falha técnica no processo ou a sensação de que "você" falhou como homem? Se a crítica atinge a sua substância, e não apenas a sua função, é sinal de que você entregou a chave da sua casa nas mãos do seu empregador.
Curadoria Parabellum
- I. A Beleza Importa: A disciplina técnica de raspadores de assoalho que revela como a ordem externa é, antes de tudo,
- II. Cineclube Parabellum: Um filme que nos ensina a encontrar a liberdade através da rotina
- III. Ombros de Gigantes: A lição de Aristóteles sobre como a excelência não é um evento isolado de performance, mas o hábito constante de
- IV. Faça Alguma Coisa: Um exercício de silêncio e jejum de justificativas para treinar o ego a não depender da
- V. Trilha Sonora: Uma melodia melancólica e a soberania de uma identidade que encontra satisfação na realidade simples.
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