Os pequenos abandonos
Semana passada assisti com meus filhos, pela primeira vez para eles, ao filme O Jardim Secreto. Eu já conhecia a história, apesar de já não lembrar de quase nada. O filme é baseado no clássico livro The Secret Garden, publicado em 1911, e conta a história de Mary Lennox, uma menina que, após perder os pais na Índia, é enviada para viver em uma mansão isolada de um tio na Inglaterra.
A casa para onde ela vai é grande, fria e triste. Uma junção de dezenas de cômodos suntuosamente decorados e adultos emocionalmente ausentes. Ali ela encontra outras crianças igualmente marcadas pela ausência: um primo doente, criado praticamente em isolamento, e um garoto pobre que vive à própria sorte pelos campos da propriedade. Aos poucos, enquanto descobrem um jardim abandonado dentro da propriedade, as crianças começam também a reconstruir algo dentro de si mesmas.
O filme é, entre outras coisas, uma história sobre abandono. Não apenas o abandono físico, aquele evidente, que reconhecemos imediatamente como errado, mas o abandono emocional e silencioso, que vai deixando marcas invisíveis nas pessoas.
Enquanto assistia com meus filhos, comecei a pensar em quantas vezes tratamos o abandono como algo extremo, quase sempre associado a histórias dramáticas: pais que desaparecem da vida dos filhos, famílias destruídas, lares despedaçados. Esses são, de fato, abandonos reais e graves.
Mas o filme também sugere outra coisa.
Ele mostra que existem abandonos menores, quase cotidianos, que raramente recebem esse nome.
O pai que está em casa, mas não está realmente presente.
A conversa que poderíamos ter agora, mas é adiada indefinidamente.
O amigo que nos pede ajuda e recebe apenas silêncio.
O tempo que deveria ser dado a alguém e que acaba sendo consumido por distrações triviais.
Hoje, o celular talvez seja o símbolo mais claro desse tipo de ausência. A tecnologia não é um problema por si só, mas oferece uma forma extremamente confortável de não estar presente. O corpo está ali, na sala, à mesa, no mesmo ambiente, mas a atenção está em outro lugar.
Por isso, o abandono é uma forma silenciosa de traição.
Traição não precisa envolver mentira elaborada ou grandes decepções. Às vezes ela acontece simplesmente quando deixamos de estar onde deveríamos estar, especialmente quando o outro contava com isso. Quando alguém espera nossa presença, nossa palavra, nossa ajuda, e nós escolhemos a ausência mais conveniente.
E isso talvez explique por que o abandono é tão devastador: porque ele comunica ao outro, ainda que sem palavras, que ele não vale o esforço da nossa presença.
Não falo aqui dos grandes abandonos que todos sabem condenar. Falo daqueles pequenos, quase imperceptíveis, que cometemos por preguiça, distração ou covardia. Aqueles momentos em que seria mais fácil levantar os olhos, prestar atenção, fazer uma ligação, oferecer ajuda, mas escolhemos não fazer.
O problema é que, do outro lado, esses pequenos gestos nunca são pequenos.
Quando você analisa suas próprias fugas diárias, seja rolando o feed do celular infinitamente ou usando o cansaço como desculpa inquestionável, você consegue admitir que tem usado essas distrações como um escudo deliberado para evitar o esforço emocional que a vida real exige?