Escura era a noite, frio era o chão
Em 1977, a NASA lançou duas sondas Voyager em direção ao espaço profundo. A missão técnica era estudar Júpiter e Saturno, mas a missão filosófica era muito mais ambiciosa: caso essas sondas fossem interceptadas por alguma inteligência extraterrestre, elas carregavam um disco de cobre banhado a ouro com sons e imagens da Terra.
Carl Sagan e sua equipe tiveram a difícil tarefa de selecionar o que, afinal, define a humanidade.
A escolha era óbvia: a música clássica, com sua estrutura matemática, sua complexidade harmônica e sua elevação espiritual, representa a nossa capacidade de organizar o caos e criar catedrais de som que apontam para algo maior que nós mesmos. É a nossa aspiração ao divino. Por isso, incluíram Bach, Mozart e Beethoven.
Mas Sagan sabia que, se enviasse apenas a perfeição de Bach, estaria contando uma meia-verdade sobre a experiência humana. Faltava algo que explicasse a dor, a solidão, a noite escura da alma.
Então, eles incluíram "Dark Was the Night, Cold Was the Ground", de Blind Willie Johnson, cujo título pode ser traduzido como "Escura Era a Noite, Frio Era o Chão".
Se você nunca ouviu essa faixa, colocamos ela como a Trilha Sonora de Domingo ao final desta edição (confira lá e retorne aqui). Mas não espere uma canção convencional. Johnson, um pregador cego e pobre do Texas da década de 20, não canta uma única palavra inteligível. Ele apenas grunhe, geme e desliza um canivete sobre as cordas do violão, imitando a voz humana em lamento.
Não há letra porque a dor que ele descreve - a dor de ser finito, frágil e estar sozinho no escuro - é anterior à linguagem. É o som de um homem que não tem mais palavras para orar, que parou de tentar explicar o sofrimento e passou apenas a senti-lo.
Existe uma tentação moderna de tratar a vida como um jogo a ser vencido. Vendem-nos a ideia de que, se seguirmos as regras certas, se formos produtivos e otimistas, amanhã estaremos em um novo nível, com novos poderes e menos problemas. Querem que a nossa vida seja um jingle publicitário: curto, feliz e resolvido.
O problema é que essa forma de enxergar a realidade não descreve bem como a vida funciona.
Jogos possuem regras estáveis. A vida real, não. A vida real tem "frio no chão" e "noite escura". Tem diagnósticos médicos que não esperamos. Tem acidentes. Tem decisões erradas. Tem negócios que falham apesar do esforço. Tem despedidas. Tem momentos em que Deus fica em silêncio.
Quem encara a vida como um jogo vive frustrado, porque acha que as dificuldades e sofrimentos são erros no sistema. Acha que se a vida está se repetindo, é porque está estagnada.
Mas às vezes, a única resposta honesta que temos para dar à vida não é um plano de ação, mas sim um lamento. E há uma dignidade profunda nisso.
Tremendas Trivialidades
Edição #163#
Mas às vezes, a única resposta honesta que temos para dar à vida não é um plano de ação, mas sim um lamento. E há uma dignidade profunda nisso.
Carl Sagan disse que a música de Blind Willie Johnson foi enviada ao espaço para dizer ao universo: "Nós somos uma espécie que sofre, mas que tem a coragem de transformar esse sofrimento em beleza".
Precisamos da música clássica para não esquecermos que a Beleza existe e que o caos não é a palavra final. Bach, Mozart e Beethoven nos ajudam a olhar para cima. Mas também precisamos do blues para entendermos que a tensão, o erro, o cansaço e a repetição não são sinais de fracasso. Eles são a matéria-prima.
Lembre-se disso quando o chão estiver frio e a noite estiver escura.
Se a vida real tem noites escuras e chão frios e não é apenas uma escada de sucessos constantes, olhe para a sua maior dificuldade atual: você está encarando isso como um castigo injusto que não deveria estar acontecendo, ou consegue aceitar que essa é a sua realidade agora e buscar a dignidade e coragem necessária para atravessá-la?
Curadoria Parabellum
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