Encheu!
Existe uma história curiosa e folclórica sobre Juscelino Kubitscheck, ainda nos tempos em que ele era prefeito de Belo Horizonte. Conta-se que, durante a construção da Lagoa da Pampulha, havia um jornalista que criticava a obra, e JK, com insistência. Para quem não conhece a capital de Minas Gerais, vale situar: a Pampulha não era apenas uma imensa lagoa, mas parte de um projeto amplo de urbanização, que envolvia arquitetura moderna, planejamento urbano e uma visão de cidade bastante ousada para a época. O conjunto, que hoje parece natural aos olhos de quem visita Belo Horizonte, soava, naquele momento, como exagero e, para alguns, como desperdício.
Esse jornalista, segundo a história, dizia que a lagoa não encheria. Que aquilo não passaria de mais uma promessa grandiosa sem lastro na realidade. Anos depois, com a obra concluída e a lagoa cheia, diz-se que JK teria enviado a ele um telegrama contendo uma única palavra: “Encheu.”

Não há confirmação de que isso tenha acontecido (provavelmente não aconteceu mesmo). Ainda assim, a história sobrevive. E sobrevive porque, embora provavelmente não seja verdadeira nos fatos, é profundamente verdadeira naquilo que sugere.
Há momentos em que a resposta adequada não se constrói com argumentos, mas com o tempo.
É muito comum que tenhamos uma inclinação quase automática a explicar tudo o que fazemos. Quando alguém questiona, sentimos a necessidade de justificar; quando nos criticam, queremos rebater; quando duvidam, buscamos convencer. Isso se torna um hábito, e com o tempo passamos a agir como se o reconhecimento dependesse da nossa capacidade de sustentar uma boa argumentação.
O problema é que, na maior parte das situações importantes da vida, não depende.
Aquilo que realmente sustenta a palavra de um homem não é a forma como ele a defende, mas a forma como ele a cumpre.
Tremendas Trivialidades
Edição #174#
E cumprir, ao contrário de responder, não oferece retorno imediato. Exige continuidade, repetição e principalmente disciplina. Por isso mesmo, há tanta gente capaz de falar bem sobre o que pretende fazer, e tão pouca gente disposta a atravessar o tempo necessário para, de fato, realizar.
Esse padrão aparece com facilidade quando olhamos com um pouco de honestidade para nossas próprias vidas. No casamento, por exemplo, é comum que façamos promessas com convicção, acompanhadas de boas explicações sobre intenções e mudanças. Ainda assim, o que transforma a relação não é a promessa bem formulada, mas a sequência de atitudes que a confirma. O mesmo vale para a relação com os filhos, para o trabalho, para qualquer área em que se espere consistência: a confiança não nasce do discurso, mas da repetição.
Talvez a historia da Lagoa da Pampulha nunca tenha ocorrido da forma como é contada. Ainda assim, ela aponta para algo simples, que costumamos ignorar com facilidade: nem toda dúvida precisa ser respondida imediatamente, e nem toda crítica merece ser enfrentada no mesmo terreno em que foi feita. Em muitos casos, o que resolve não é a réplica, mas o tempo bem gasto.
E quando esse tempo produz resultado, o efeito costuma ser suficiente por si só.
Quanto da sua energia hoje está sendo gasta tentando "provar o seu ponto" para pessoas que não estão interessadas na verdade, mas apenas na crítica? O que aconteceria se você usasse essa mesma energia apenas para terminar a obra que está nas suas mãos?