Antes da última batida na porta...

Durante séculos, a família Habsburgo esteve entre as mais poderosas da Europa. Imperadores, reis, arquiduques. Governaram territórios imensos, decidiram guerras, assinaram tratados que mudaram o destino de povos inteiros. Seus nomes carregavam títulos longos, genealogias complexas e uma autoridade que parecia inabalável. Mas, no fim, todos eles passaram pelo mesmo ritual.

Quando um membro da família morria, o corpo era levado à Cripta dos Capuchinhos, em Viena. Antes de ser sepultado, acontecia uma cerimônia simples e dura. Um arauto batia à porta da cripta. Do lado de dentro, um monge perguntava: “Quem pede para entrar?” O arauto então respondia com todos os títulos do falecido: imperador de não sei onde, rei disso, senhor daquilo, detentor de honras e glórias acumuladas ao longo de uma vida inteira. A resposta vinha seca: “Não o conhecemos.” A porta permanecia fechada.

O ritual se repetia. Outra batida. Outra pergunta. Desta vez, os títulos eram reduzidos, tornados mais modestos. Ainda assim, a resposta era a mesma: “Não o conhecemos.” Só na terceira vez o arauto dizia algo diferente: “Peço entrada para um pobre pecador.” Então a porta se abria. O corpo entrava. E tudo o que não cabia naquela frase ficava do lado de fora.

Esse ritual não era uma humilhação após a morte. Era uma lição final. Um lembrete silencioso de que, diante da morte, títulos não se sustentam e prestígio não tem peso algum. Tudo aquilo que parecia essencial durante a vida perde valor num instante. O que sobra é pouco. E é exatamente isso que importa.

A dificuldade é que vivemos como se essa conta nunca fosse chegar. Pesamos mal as coisas. Damos atenção demais ao que impressiona os outros e atenção de menos ao que sustenta a vida de verdade. Trabalhamos para acumular sinais de sucesso, mas negligenciamos o caráter. Buscamos reconhecimento, mas esquecemos de cultivar relações. Defendemos imagens públicas enquanto deixamos a casa, o casamento e a consciência se desgastarem em silêncio.

A Bíblia resume essa inversão com uma clareza desconfortável: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:36). A pergunta não é retórica. É prática. E precisa ser respondida todos os dias, nas escolhas pequenas e aparentemente sem importância.

Porque chega um momento, cedo ou tarde, em que tudo o que construímos será colocado na balança. E muita coisa que parecia grande demais não terá peso algum.

Tremendas Trivialidades

Edição #164#

O ritual dos Habsburgo não falava apenas de morte. Falava da necessidade de aprender, enquanto ainda há tempo, a distinguir o que é acessório do que é essencial. Porque chega um momento, cedo ou tarde, em que tudo o que construímos será colocado na balança. E muita coisa que parecia grande demais não terá peso algum.

Talvez a vida exija isso de nós: aprender a viver agora como quem entende o fim. Não com medo, mas com sobriedade. Não desprezando conquistas, mas sabendo exatamente quanto elas valem. No fim, a pergunta não será o que possuímos, nem o que exibimos, nem o que acumulamos. Será apenas quem fomos quando os títulos já não serviam para nada.

E é melhor pensar nisso antes da última batida na porta.

💭 EXAMINE A SI MESMO

Os Habsburgos aprenderam que títulos não abrem a porta final. Olhando para as suas preocupações de hoje, as coisas que tiram seu sono, as brigas que você compra, as metas que você persegue, quantas delas terão qualquer peso ou validade daqui a 20 anos? Você está vivendo para acumular o que impressiona os vizinhos ou o que sustenta a sua alma?
Na edição de hoje

Curadoria Parabellum

  • I. A Beleza Importa: A marcha obstinada de quem decide continuar caminhando e suportar o peso da existência sem reclamar.
  • II. Construção de Repertório: Uma crônica que nos lembra que o verdadeiro drama da vida não é o tempo passar, mas o olhar envelhecer.
  • III. Ombros de Gigantes: Um conselho de Churchill para não montarmos acampamento no meio do inferno.
  • IV. Faça Alguma Coisa: Uma pergunta que precisa ser feita antes de tomarmos decisões.
  • V. Trilha Sonora: Um jazz que incorpora elementos do gospel tradicional e não exige manual de instruções para ser apreciado.
A maturidade e uma vida bem vivida exigem boas referências.

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