A Última Palavra Não é a Última
Hoje é Domingo de Páscoa.
E não é por acaso que o tema desta edição gira em torno disso. Entre todas as datas do calendário, poucas carregam um peso tão grande quanto essa. A Páscoa afirma algo muito específico: que a morte não teve a palavra final. E isso, quando levado a sério, muda a forma como se olha para a própria vida.
Nós nos acostumamos a pensar em “fins” de maneira muito definitiva. Um relacionamento que termina, um projeto que fracassa, uma fase que se encerra de forma feliz ou nem tanto. Escorados em nossa percepção humana e limitada, temos o hábito natural de interpretar esses momentos como conclusões fechadas, como se aquilo que se perdeu levasse consigo também qualquer possibilidade de continuidade.
Mas a lógica da Páscoa é outra.
Ela não nega a dor. Cristo morreu de fato. Houve abandono, silêncio, a sensação concreta de que tudo havia terminado. Para quem estava ali, não havia expectativa de “reviravolta”. Havia apenas o fim.
E, ainda assim, não era o fim.
Talvez o ponto mais difícil, e mais importante, de compreendermos seja esse: a ressurreição não aconteceu antes da morte, nem durante. Ela aconteceu depois. E isso não é apenas um detalhe teológico.
Na vida concreta, também atravessamos momentos em que algo precisa, de fato, morrer. Expectativas que não se cumprem, planos que não se sustentam, versões de nós mesmos que já não funcionam mais. E a nossa reação mais comum é tentar evitar esse processo, prolongar o que já acabou ou negar o que já se perdeu.
Mas há coisas que só podem ser reconstruídas depois que são completamente abandonadas.
A dificuldade é que, no meio desse processo, tudo parece apenas perda. Não há sinal evidente de que algo novo virá. Existe apenas a travessia, muitas vezes silenciosa, de um período que não faz sentido completo enquanto está acontecendo.
A Páscoa nos lembra que nem todo fim é definitivo, mas também que nem toda continuidade é imediata. Existe um intervalo.
E é nesse intervalo que a maioria das pessoas se perde. Porque é ali que não há como antecipar o resultado. É ali que se decide, na prática, se você abandona o caminho ou permanece nele mesmo sem entender completamente.
A fé cristã não promete uma vida sem rupturas. Ela aponta para algo mais exigente: a possibilidade de atravessá-las sem que elas sejam o ponto final.
Tremendas Trivialidades
Edição #172#
E isso tem implicações diretas na forma como vivemos.
Significa que um erro não precisa ser definitivo. Que um fracasso não precisa ser a identidade de alguém. Que uma fase ruim não precisa determinar o resto da história. Não porque tudo automaticamente se resolve, mas porque a realidade não termina onde a nossa percepção imediata termina.
A ressurreição não elimina a cruz. Mas impede que ela seja a última palavra.
E talvez seja essa a lição mais prática e mundana deste domingo: nem tudo o que parece encerrado está realmente encerrado. Nem tudo o que foi perdido foi perdido de forma definitiva. E nem tudo o que hoje parece silêncio permanecerá assim.
A vida não é linear.
E, para quem leva a Páscoa a sério, o fim nunca é apenas o fim.
Qual "fim" você está tratando como absoluto hoje, permitindo que ele paralise as suas outras áreas da vida? Você tem coragem de habitar o "intervalo" de silêncio sem tentar forçar uma solução imediata ou artificial?