A Marcha do Tempo

Recentemente um dos meus filhos dormiu no carro pouco antes de chagarmos em casa, coisa que ele já não faz com tanta frequência. Já era tarde, então decidimos levá-lo direto para a cama. Tirei-o do carro, o coloquei no colo e comecei a caminhar para o quarto quando a observação do que já era evidente me veio à mente: “como ele está grande!”. As pernas balançando para baixo da minha cintura, a cabeça pesando em meu ombro, um corpinho de criança pequeno, mas muito maior do que eu me lembrava. O tempo passou, e continua passando, sem fazer questão de nos avisar.

Há um ponto na vida em que começamos a perceber que o tempo avançou não porque fazemos aniversário, mas porque as coisas começam a mudar sem nos pedir licença. Subir uma escada começa a ser um ato perceptível, a recuperação depois de uma noite mal dormida já não é a mesma, os filhos começam a fazer perguntas mais difíceis, os pais precisam de ajuda em tarefas que antes resolviam sozinhos, e a sensação de que havia tempo de sobra começa a perder força.

A questão é que quase ninguém percebe isso acontecendo em tempo real, porque a vida adulta costuma ser barulhenta demais para permitir esse tipo de atenção. Há contas, trabalho, escola dos filhos, consulta marcada, mercado, manutenção da casa, mensagem para responder, problema para resolver. Enquanto se tenta manter tudo em pé, o tempo vai fazendo seu serviço em silêncio. E um dia você nota.

Nota que certas conversas que adiou já não podem ser retomadas do mesmo jeito, que algumas oportunidades ficaram para trás para sempre, que a infância dos filhos não espera a sua agenda melhorar, que seus pais não são mais aqueles adultos fortes e quase permanentes da sua memória. Nota também que o corpo, que durante anos parecia apenas uma ferramenta constantemente disponível, agora exige cuidado, descanso e um pouco mais de humildade.

Envelhecer não é uma tragédia. Tragédia é envelhecer distraído.

Tremendas Trivialidades

Edição #176#

É passar anos acreditando que depois haverá mais tempo, mais calma, mais presença, mais disposição, mais coragem para fazer o que precisa ser feito. Depois a gente conversa. Depois visita. Depois cuida da saúde. Depois brinca com as crianças. Depois organiza a vida. Depois muda.

O “depois” é uma palavra perigosa quando usada demais. A vida não costuma abrir uma janela perfeita para que finalmente sejamos o pai, a mãe, o marido, a esposa, o filho, o amigo ou a pessoa que deveríamos ser. O tempo disponível é quase sempre este: imperfeito, interrompido, cansado, cheio de pendências. E é justamente nele que as coisas importantes precisam acontecer.

Aceitar que estamos envelhecendo é um pouco apaziguador. Isso tira um pouco da vaidade e nos obriga a escolher melhor onde colocamos energia.

Quando entendemos o tempo ficamos menos interessados em parecermos ocupados e mais preocupados em estarmos presentes. Começamos a perceber que algumas vitórias profissionais não compensam certas ausências, que dinheiro ajuda muito, mas não compra anos perdidos, e que a força verdadeira talvez esteja em ordenar a vida antes que a vida nos obrigue a isso.

Isso vale também para a alma. Porque envelhecer mostra, com uma honestidade que incomoda, que não somos infinitos. Aquilo que parecia assunto para mais tarde começa a bater à porta com mais frequência.

Talvez amadurecer seja aprender a viver sem precisar de sustos para prestar atenção.

Olhar para os filhos enquanto ainda querem nossa companhia. Honrar os pais enquanto ainda estão aqui. Cuidar do corpo antes que ele cobre com juros. Ajustar a casa, a rotina, o trabalho e a consciência enquanto ainda há tempo.

Porque o tempo passa, com ou sem a nossa permissão.

💭 EXAMINE A SI MESMO

Qual é a conversa, a visita ou o ajuste de rota que você está empurrando para um "depois" hipotético? Se o tempo parasse de marchar hoje, esse "depois" seria o seu maior arrependimento ou uma pendência irrelevante?
A Curadoria Parabellum é o nosso esforço semanal para filtrar o ruído e oferecer conteúdos de qualidade. Para acessá-la, torne-se um assinante clicando no botão abaixo.
QUERO ASSINAR