A arrogância do agora

Há um truque curioso que a nossa cabeça faz com o tempo. Quando pensamos no passado, ele parece sempre distante, meio borrado, quase sem vida, até um pouco cômico. Como se as pessoas de outras épocas vivessem num mundo menos real, menos intenso, menos importante do que o nosso.

Talvez isso venha das fotos antigas, em preto e branco, dos filmes com cores pálidas, das roupas que hoje parecem caricatas. Para nós, o passado é um cenário desbotado, habitado por gente que vivia em câmera lenta, sentia menos e sabia menos do que nós.

É uma ilusão reconfortante. E mentirosa.

Aquele sujeito de cartola na foto de 1910 não estava "posando para a história". Ele estava preocupado com o aluguel. Ele tinha uma dor nas costas que não passava. Ele estava apaixonado por uma mulher que não olhava para ele, ou com medo de uma guerra que se anunciava nos jornais. O sangue nas veias dele corria na mesma temperatura e pressão que o seu corre agora. O medo de morrer, a inveja do vizinho, a euforia de um primeiro beijo... nada disso tinha filtro sépia. Era tudo em 4K e urgente.

O mundo sempre foi exatamente como é hoje. O céu tinha a mesma cor. O calor cansava do mesmo jeito. O frio doía nos ossos. O amor apertava no peito. O medo aparecia diante das incertezas. As pessoas acordavam atrasadas, se preocupavam com dinheiro, brigavam em casa, tentavam manter a dignidade no meio do caos e faziam planos que, em grande parte, não se realizavam. Para elas, aquele dia também era o presente, importante e decisivo. Os acontecimentos daquele momento eram os mais importantes de toda a história.

O que nos engana é a nossa arrogância temporal. Temos a certeza absoluta de que este "nosso momento" é o auge da complexidade. Achamos que nosso tempo é mais rápido, mais pesado, mais importante. Que nossas decisões importam mais. Que nossa ansiedade é inédita e que a pressão é maior. Que o mundo nunca foi tão confuso. Mas cada geração sentiu exatamente a mesma coisa. Cada pessoa que veio antes de nós acreditou que estava vivendo um momento único, moderno, decisivo. E cada uma delas acabou virando passado do mesmo jeito.

Aquilo que hoje parece inadiável e tira o seu sono, em breve será apenas uma nota de rodapé sobre "como as pessoas viviam naquela época".

Tremendas Trivialidades

Edição #161#

Daqui a cinquenta anos, alguém vai encontrar uma foto sua. Vai rir do corte do seu cabelo, achar ridículo o que você considerava "estiloso" e olhar com tédio para as "urgências" que hoje tiram o seu sono. Aquilo que agora parece inadiável será apenas “como as pessoas viviam naquela época”. As brigas políticas do Twitter, a meta batida no trabalho, a notificação que você não pode deixar de ler, talvez virem notas de rodapé. Ou nem isso.

Isso não serve para te deprimir, mas para te oferecer uma saída.

Se o hoje vai virar passado, o que estamos fazendo agora que realmente merece atravessar o tempo? O que vai sobreviver quando o resto virar ruído de fundo? Quais escolhas vão parecer óbvias em retrospecto e quais vão parecer um enorme desperdício de vida?

Talvez viver bem seja isso: lembrar, no meio da correria, que o presente não é sagrado só porque é nosso. Que ele será julgado com a mesma frieza com que julgamos os outros tempos. Que aquilo que hoje nos distrai pode não significar nada amanhã. E que, se quisermos deixar algo que valha a pena, precisamos escolher melhor onde colocamos nosso tempo, nossa atenção e nossa energia.

O passado não era menos real. O futuro não será mais gentil. Só existe o agora. E ele está escorrendo pelas suas mãos enquanto você lê esta linha.

Faça valer a pena. Não para a história, mas para você e para os seus.

💭 EXAMINE A SI MESMO

Se você pudesse ver a biografia que escreverão sobre você daqui a 50 anos, qual das suas "urgências inadiáveis"de hoje seria retratada apenas como uma nota de rodapé cômica sobre como as pessoas da nossa década desperdiçavam a vida?
Na edição de hoje

Curadoria Parabellum

  • I. Educação dos Sentidos: A tensão e beleza de um olhar congelado no segundo exato antes de uma palavra ser dita.
  • II. Cineclube Parabellum: Disfarçado de comédia romântica, um filme que esconde importante lições sobre a paternidade e a finitude do tempo.
  • III. Curiosidades: A mentira da inteligência britânica que foi parar no seu prato de salada.
  • IV. Ombros de Gigantes: O estado geral das coisas não deve ser usado como álibi moral para justificar nossa própria falta de virtude.
  • V. Faça Alguma Coisa: Apenas uma pergunta para devolver a proporção real aos problemas que parecem urgentes.
  • VI. Trilha Sonora: Uma canção para aqueles que sentem que a vida está passando rápido demais e não sabem como frear o trem.
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